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Psicologia: Ciência e Profissão - O processo de orientação vocacional frente ao século XXI: perspectivas e desafios

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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.22 no.3 Brasília Sept. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932002000300008 

ARTIGOS

 

O processo de orientação vocacional frente ao século XXI: perspectivas e desafios

 

 

Josemberg M. de Andrade*; Girlene R. de Jesus Maja Meira**; Zandre B. de Vasconcelos***

Universidade Federal da Paraíba

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho tem como objetivo discutir as perspectivas e desafios do processo de orientação vocacional (OV) frente ao século XXI. A OV, ao ajudar o indivíduo a encontrar uma identidade profissional, auxilia na estruturação de sua identidade pessoal, favorecendo a elaboração de um projeto de vida. O desenvolvimento da ciência e da tecnologia operacionaliza mudanças acentuadas no mercado de trabalho, fazendo com que este esteja sempre em uma contínua mudança. A nova realidade que vem se delineando no contexto brasileiro exige que a OV se adapte às mudanças sociais. Assim, alguns aspectos devem ser considerados e analisados com a finalidade de se alcançar a eficácia na OV, entre eles: o papel do profissional, que deve estar ciente da postura ética que deve assumir e a real finalidade da OV, que não deve apenas informar sobre as profissões, e sim, trabalhar o autoconhecimento e a questão da escolha em si.

Palavras-chave: Orientação vocacional, Mudanças, Desafios e perspectivas.


ABSTRACT

This work has the objective of discussing the perspectives and challenges of the vocational orientation process (VO) towards the XXI century. The VO process, helping the individual to find a professional identity, aids on the structuring of his/her personal identity, favoring a life project elaboration. The science and technology development produces accentuated changes in the labor market, and causes its continuous change. The new reality, which is delineated in the Brazilian context, demands that the VO adapts itself to the social changes. Thus, some aspects should be considered and analyzed with the purpose of reaching the effectiveness in VO, among them: the professional’s role that should be aware of the ethical posture which he should assume and the real purpose of VO, that should not just inform about the professions, but it should work the self-knowledge and the question of the choice in itself.

Keywords: Vocational orientation, Changes, Challenges and perspectives.


 

 

O desenvolvimento da ciência e da tecnologia evidenciado atualmente operacionaliza mudanças cada vez mais acentuadas no mercado de trabalho, fazendo com que este esteja sempre em uma contínua mudança. O conhecimento científico e a tecnologia revolucionaram as bases materiais e morais da existência humana, modificando as aspirações do homem (Fernandes, 1966). Evidencia-se uma demanda pela automação dos serviços e até das relações humanas com a finalidade de se obter resultados mais rápidos; o domínio de técnicas é imprescindível e é associado à possibilidade de se apresentar soluções com a eficiência exigida pela modernidade (Rodrigues & Ramos, 2000). Assim, com uma rápida velocidade, exclusões são efetivadas, o que não está mais apropriado precisa adequar-se para não ser marginalizado.

As transformações sociais e econômicas do sistema capitalista, embora marcadas por movimentos contraditórios e heterogêneos e em meio a incertezas, oscilações e contradições, colocam novos e graves questionamentos em todo o mundo no século XXI. Este novo período traz muitas incertezas sobre o futuro da cidadania, sobretudo dentro e fora dos espaços de trabalho (Paixão & Figueiredo, 1996). Atualmente, a economia exige técnicos, especialistas que tenham conhecimento aprofundado e preciso em áreas que não existiam anteriormente. Essa procura por técnicos, bens e serviços tem-se alterado com o progresso, aumentando, ainda, a demanda de trabalhadores em algumas profissões e reduzindo em outras. A automação e a computação eletrônica revolucionaram determinados campos de atividades, oferecendo maiores oportunidades para novas especialidades e também causando desemprego para mão de obra não qualificada (Super & Junior, 1980).

É impossível saber onde se chegará com todos os avanços da ciência atrelados ao desenvolvimento da tecnologia e da globalização; mas, notadamente, os efeitos desses avanços já oferecem sinais de profundas modificações na vida das pessoas, das empresas e do mercado de trabalho (Rodrigues & Ramos, 2000). Esses avanços têm um impacto considerável em todas as áreas da vida; no mercado de trabalho, por exemplo, além de competência para o cargo a ser desempenhado, são exigidas do profissional novas habilidades que vão se tornando imprescindíveis, tais como saber trabalhar em equipe e ter criatividade. Essas habilidades são essenciais para que o profissional possa realizar satisfatoriamente o seu trabalho dentro dessa nova perspectiva (Farah & Frafoso, 2000).

Sabe-se que a adolescência é uma fase em que há o desprendimento da infância e a entrada progressiva no mundo e no papel adulto; é nesse contexto conturbado que os jovens precisam assumir uma postura diante da sociedade, tendo que optar por uma carreira profissional a ser seguida (Müller, 1998). No início da adolescência, o jovem sente-se descompromissado com o seu projeto de vida, vivendo, muitas vezes, a ilusão, a fantasia e o sonho; mas, ao passo em que vai conquistando sua própria identidade e compreendendo suas próprias singularidades, tem a necessidade de definir-se, conhecer-se e de escolher sua profissão com base na sua realidade pessoal e sociocultural (Golin, 2000).

O jovem se vê diante de uma multiplicidade de profissões, áreas de estudo, cursos, chegando a ficar, muitas vezes, confuso diante de tal complexidade. Inicialmente, ele se guiará a partir do mapa representacional construído por si próprio com base na sua posição sociocultural e econômica (Silva, 1999b). Na maioria dos casos, quando os jovens são chamados a refletir sobre as dificuldades e possibilidades do mercado de trabalho e de se escolher uma profissão, usam meios não muito seguros, recorrendo a mitos e ideologias que sem dúvida, os tranqüilizam e diminuem as suas ansiedades, mas não são verdadeiras saídas (Junqueira, 1999).

Na sociedade globalizada, onde transformações se operacionalizam cada vez mais rápido, os jovens sentem-se pressionados, seja pela própria complexidade do mercado de trabalho, seja pelo avanço da tecnologia que indica novos rumos e caminhos a serem seguidos. Deve-se, também, levar em consideração que os jovens passam por um período conturbado em relação a aspectos maturacionais e de ordem psicológica, em que dúvidas emergem provocando confusões e conflitos. O orientador vocacional deve considerar a adolescência como uma fase típica em que ocorrem grandes crises e transformações, uma síndrome normal (Müller, 1988). Uma das razões que tornam, ainda, mais difícil a transição do jovem para a fase adulta é o fato de se esperar que ele assuma novos papéis quando atinge um certo grau de instrução (Hurlock, 1979).

As marcas das identificações e a vontade de corresponder às expectativas das pessoas significativas em sua vida são questões que o jovem tenta atender (Ramos, 2000). Este se vê frente ao mercado de trabalho e de um grande campo de possibilidades, passando, assim, por um período de ruptura e tendo que se posicionar na sociedade (Silva, 1996). O processo de Orientação Vocacional (OV) surge, por sua vez, como um meio facilitador, ajudando o jovem a se conhecer melhor, dando, conseqüentemente, subsídios para que ele faça a escolha mais adequada (Pimenta, 1981).

Definida como o processo pelo qual o indivíduo é ajudado a escolher e a se preparar para entrar e progredir numa ocupação, a OV propicia o desenvolvimento do auto-conhecimento, aplicando essa compreensão às ocupações (Super & Junior, 1980). Hoje em dia, a OV é o resultado de um certo número de movimentos, pesquisas e trabalhos que no início tiveram o objetivo imediato de auxiliar os jovens na escolha de ocupações adequadas. Coletaram-se e organizaram-se informações e passou-se a explorar os inventários e testes psicológicos como recursos a mais, tornando o processo de OV mais complexo e eficiente (Super & Junior, 1980).

Em todo o decorrer da história, teve-se a necessidade de colocar as pessoas certas nos locais certos (Pimenta, 1981); sempre existiu a idéia de que alguns homens podem ser melhores do que outros para executar determinados trabalhos (Super & Junior, 1980). Todavia, nem sempre o homem pôde escolher trabalhar naquilo que gostaria ou que se considerava mais apto ou capaz, embora o trabalho, como dimensão da existência, sempre estivesse presente na vida das pessoas (Pimenta, 1981). A liberdade para escolher uma ocupação é algo relativamente novo. Antigamente, o indivíduo tinha pouca ou nenhuma liberdade de escolha, pois o nível social e ocupacional, e mesmo o campo de atividade, eram determinados primeiramente pelo nascimento. A partir do Renascimento e da Reforma, cresceu o reconhecimento da humanidade da capacidade e da singularidade do indivíduo. Cada homem, nesse momento, era considerado o centro de um universo, construído por ele mesmo e membro de uma sociedade humana maior. Com o Iluminismo, vieram a expansão da visão humanística do destino e a aplicação dessa visão à política e à economia; em seguida, com o advento da democracia na sociedade industrial, surgiu uma relativa liberdade na escolha das ocupações (Super & Junior, 1980).

“A vida ocupacional de um homem é considerada um dado fundamental de sua existência” (Super & Junior, 1980, p. 216). Nos dias atuais, pode-se vir a escolher uma carreira profissional; se existe essa possibilidade de escolha, existe também a possibilidade de alguém ajudar o indivíduo a escolher, isto é, de orientar” (Pimenta, 1981). Toda escolha provoca necessariamente uma renúncia; ao escolher abandona-se uma outra opção e isto pode provocar algum sofrimento para o adolescente. O profissional de OV vai tentar reparar essa situação e ajudar o adolescente a escolher, devendo-se estar consciente de que é mais difícil fazer um diagnóstico referente à problemática vocacional do que um de personalidade, pois o primeiro tende a investigar a dinâmica interna do adolescente, verificando não só os conflitos e dificuldades referentes à escolha profissional, mas também de outras àreas (Bohoslavsky, 1993). A importância do processo de OV é evidenciada no fato de que, havendo uma identificação profissional, haverá maiores possibilidades de o indivíduo e desenvolver em todas as suas potencialidades.

A fim de alcançar a eficácia do processo, alguns aspectos devem ser considerados; dentre eles, pode-se citar: (a) o papel do profissional de OV frente a uma nova realidade sócio-cultural e econômica, (b) a finalidade do processo de OV que deve visar não apenas a informar sobre carreiras profissionais, mas também a trabalhar aspectos como o autoconhecimento e a questão da escolha em si, levando em consideração o mercado de trabalho.

Tendo em vista a complexidade do trabalho de OV, este artigo tem como objetivo discutir as perspectivas e os desafios do processo de OV frente ao século XXI, abordando a sua importância e a maneira como deve ser operacionalizado. Sabendo-se que este trabalho não visa a esgotar a problemática do tema, a sua importância é evidenciada no fato de se fazer uma reflexão sobre os novos determinantes que permeiam o processo de OV frente a uma sociedade globalizada.

 

Importância do Processo de Orientação Vocacional

O ser humano, desde a infância, passa a conhecer a importância e o valor que o trabalho tem para sua vida; para a maioria das pessoas, a identidade vocacional forma uma parte importante de sua identidade geral. Ter um emprego valorizado pela sociedade – e ter sucesso e prestígio nele – aumenta a auto-estima e facilita o desenvolvimento de um senso de identidade mais seguro e estável. Por outro lado, quando a sociedade aponta que alguém não é necessário e que não há disponibilidade de bons empregos, pode-se gerar dúvidas, incertezas ou mesmo, como em alguns casos, delinqüência e sentimentos de revolta, formando uma identidade negativa (Mussen, Conger, Kagan & Huston, 1995).

O Processo de OV surge como uma possibilidade de ajuda para os jovens, não levando estes a apenas escolherem uma profissão, mas auxiliando-os a se conhecerem melhor como indivíduos inseridos em um contexto social, econômico e cultural. A OV constitui-se num campo de trabalho que intervém na vida cotidiana dos seres humanos (Azevedo & Santos, 2000), oferecendo aos indivíduos padrões de mecanismos de adaptação à vida (Super & Junior, 1980). Esta pode prevenir alguns transtornos na vida do adolescente, como decepções e ilusões, e favorecer a melhoria da qualidade de vida em diversos níveis (Azevedo & Santos, 2000).

Na atualidade, é observado um aumento significativo da procura dos serviços de OV. Os meios de comunicação, de certa forma, vêm demonstrando um interesse crescente pelo tema “escolha da profissão”. A OV, que esteve por um determinado período ausente das discussões dos meios acadêmicos, volta, agora, revestida de toda a força. Para muitos jovens, a escolha da profissão é vista como uma das suas necessidades mais importantes e principais, pois o avanço da tecnologia e a complexidade do mercado de trabalho provocam incertezas, influenciando diretamente na vida profissional. O jovem, ao ter conhecimento de todos esses aspectos, passa a conviver com o medo de ser mal sucedido profissionalmente, levando-o a se sentir inseguro quanto à questão da escolha “certa”. O trabalho de OV indica um provável caminho a ser seguido para os jovens que almejam seguir uma carreira profissional. Embora haja um considerável debate do tema escolha profissional, ainda persiste uma grande desinformação sobre as carreiras profissionais por parte dos jovens. Isso aumenta, indubitavelmente, a dificuldade no momento de se escolher uma profissão (Vasconcelos, Antunes & Silva, 1998).

O processo de OV interessa a âmbitos distintos, como, por exemplo, à educação em todos os seus níveis, proporcionando informações sobre a realidade do mercado de trabalho e as necessidades do país. Dessa forma, pode-se dizer que a OV acompanha o processo educativo, cooperando com ele e não apenas suprindo suas possíveis carências. A OV cumpre sua função de extrema importância quando leva o sujeito a refletir sobre si mesmo, analisando suas características, explorando sua personalidade e aprendendo a escolher e abordar situações conflitivas. Além disso, um processo de OV coloca a descoberto possíveis problemáticas do sujeito, bem como disposições psicopatológicas, pois condensa toda a história prévia dessa pessoa e, ao mesmo tempo, antecipa seu futuro (Müller, 1988).

Através do processo de OV, os indivíduos se conhecem melhor como sujeitos reais, percebendo suas identificações, características e singularidades, ampliando e transformando sua consciência e adquirindo, assim, melhores condições de organizar seus projetos de vida e, especificamente no momento, fazer sua escolha profissional, minimizando as fantasias. A OV é mais do que um momento para “a descoberta” da profissão a seguir, pois é “um processo onde emergem conflitos, estereótipos e preconceitos que são trabalhados para sua superação, onde a desinformação é enfrentada e possíveis caminhos de resolução são traçados, onde o auto-conhecimento adquire o status de algo que se constrói na relação com o outro e não como algo que se dá a partir de uma reflexão isolada, descolada da realidade social ou que se conquista através de um esforço pessoal” (Bock & Aguiar, 1995, p. 17). A partir desta concepção, pode-se dizer que a OV também é um processo que visa à promoção da saúde do indivíduo.

Assim, toda a relevância do processo de OV pode ser evidenciada quando este, ao passo que faz com que o jovem reflita sobre si mesmo, também o ajuda a escolher um caminho profissional, dando possibilidades para que possa desenvolver todas as suas capacidades.

 

operacionalização do processo de orientação vocacional

Frente às transformações da sociedade atual, questiona-se como deve ser operacionalizado o processo de OV. Primeiramente, o processo de OV não pode ser realizado de maneira descontextualizada; caso seja, não atingirá a sua finalidade. Alguns profissionais ainda se limitam a aplicar testes psicológicos, não confrontando os resultados com outras técnicas. Ao dar um resultado não corroborado ou incompleto ao adolescente, o profissional estará desqualificando a psicologia como um todo e podendo comprometer o processo de escolha de um adolescente.

O processo de OV deve ter em vista as mudanças ocorridas na sociedade e a realidade sociocultural e econômica. Surge como um caminho que os jovens podem percorrer com o objetivo de fazer a sua escolha profissional de maneira mais consciente e madura; para atingir esse fim, o processo deve ser operacionalizado de maneira que supra essas necessidades. O trabalho de OV pode ser desenvolvido tanto individualmente como em grupo. A maioria dos autores opina que tal trabalho desenvolvido em grupo é mais enriquecedor do que individualmente, principalmente se o grupo for composto por sujeitos adolescentes, pois assim auxiliará o jovem a autoperceber-se como sujeito inserido em uma realidade social, diminuindo, assim, as fantasias e idealizações que porventura possam persistir (Vasconcelos, Antunes & Silva, 1998).

Todo o trabalho de OV deve ser baseado na troca de experiências entre os jovens e na reflexão conjunta sobre o processo de escolha da profissão, reflexão esta que deve ser organizada e coordenada por profissional(ais) competente(s). É de suma importância criar condições para que os jovens possam ter acesso à maior quantidade possível de informações a respeito das profissões: suas características, aplicações, cursos, requisitos, locais de trabalho, etc. Na esfera do autoconhecimento, também devem-se criar condições e estratégias para que os jovens identifiquem suas aptidões, interesses e características de personalidade (Bock & Aguiar, 1995). A aplicação de técnicas, testes psicológicos ou outros recursos só tem sentido e real eficácia quando é verificado em um contexto amplo, onde cada orientando é único. Deve-se dar a cada adolescente um espaço e tempo necessários para que possa manifestar suas preocupações, ansiedades e problemas, devendo-se acompanhá-lo na reflexão e fazendo os possíveis esclarecimentos, para que ele vá elaborando seu projeto vocacional, definindo sua escolha e identificando os obstáculos que o impedem de fazê-la (Müller, 1988).

 

Desafios e Perspectivas do Processo de Orientação Vocacional

Faz-se necessário analisar o papel do profissional de OV diante das novas condições socioculturais e econômicas e a finalidade do processo de OV, que deve visar não apenas a informar sobre carreiras profissionais, e sim, a trabalhar aspectos como o autoconhecimento e a questão da escolha em si, levando em consideração o mercado de trabalho.

É verificado claramente no mercado de trabalho a presença de profissionais não qualificados, prestando, na maioria das vezes, serviços inadequados, chegando a resultados não válidos. Esse tipo de posicionamento, longe de ser o esperado, diz respeito à falta de uma ética profissional, muitas vezes renegada por profissionais que, em função de uma má preparação profissional, operacionalizam trabalhos sem competência para tal execução.

“Ser psicólogo implica, logicamente, deixar de ser qualquer outra coisa [..]” (Bohoslavsky, 1993, p. 175). Antes de tudo, o profissional de OV deve estar ciente tanto dos recursos técnicos quanto dos de personalidade de que deve dispor para poder desempenhar sua profissão de maneira produtiva e competente. Diante das novas perspectivas da sociedade, o profissional de OV deve passar por um processo contínuo de renovação, estando sempre a par das mudanças efetivadas no mercado de trabalho. O profissional da psicologia deve ter consciência do papel que irá desempenhar, sendo o auto-conhecimento e o desenvolvimento de sua própria pessoa uma condição sine qua non para a sua atuação como profissional. Segundo Müller (1988), as qualidades desejáveis ao orientador vocacional seriam: uma sólida formação teórica em psicologia, principalmente psicologia educacional e do desenvolvimento, conhecimento em dinâmicas de grupo, técnicas de exploração da personalidade e psicopatologia, prática clínica, empatia, equilíbrio emocional para colocar-se no lugar do outro, reconhecimento de sua própria ideologia, respeito pelos outros e aceitação dos seus limites.

Ao iniciar um processo de OV, o profissional deve estar consciente dos seus limites e decidir se deve ou não enfrentar o caso; segundo Bohoslavsky (1993), o psicólogo vai decidir enfrentar ou não um processo de OV com o cliente respondendo, basicamente, às seguintes perguntas: o adolescente tem possibilidade de adquirir sua identidade ocupacional sem uma modificação substancial da estrutura de sua personalidade? Tem maturidade para decidir quanto ao seu futuro profissional? Tem a possibilidade de empregar sua percepção, pensamentos e ação a serviço do princípio de realidade, de prever dificuldades, alcançar sínteses, tolerar frustrações? Sou a pessoa mais indicada para ajudá-lo? E este é o momento mais adequado para que se inicie seu processo de OV?

É exigido do profissional de OV uma postura criativa, inovadora e científica, perfil que deve começar a ser delineado durante a sua formação acadêmica (Calheiros, Araújo & Silveira, 2000). É imprescindível que o profissional de OV esteja tranqüilo e seguro de sua própria identidade; só assim poderá interpretar as incertezas dos adolescentes (Bohoslavsky, 1993). Além das características já citadas, a formação do orientador profissional também deve incluir conhecimentos sobre mercado de trabalho, empregabilidade, globalização, informações sobre as diferentes profissões e ocupações, sobre os diferentes cursos e universidades, além do conhecimento sobre as teorias de orientação profissional. Tem-se necessidade de uma prática na formação do profissional, assim a presença de um supervisor torna-se necessária. Também é indispensável que o orientador compreenda e conheça os motivos que o levaram a escolher a sua profissão, em especial a escolha da orientação profissional como atividade profissional, já que só poderá trabalhar com clareza os conflitos dos jovens se tiver compreendido suas próprias escolhas (Soares, 1999). Segundo Bohoslavsky (1993), só quando o orientador vocacional possuir uma identidade profissional amadurecida é que poderá oferecer ao adolescente a possibilidade de confrontar fantasia com realidade e mundo interior com exterior.

Ressaltando estes aspectos, Silva (1999a) comenta que, para auxiliar um outro indivíduo a solucionar seus conflitos diante da escolha profissional, o orientador vocacional deve cumprir as seguintes condições: passar por um processo de elaboração de sua própria escolha e de sua identidade vocacional e internalizar, compreender e ser capaz de criar as técnicas de que irá se valer no processo de OV. É tarefa do psicólogo permitir que o adolescente possa desenvolver sua auto-identidade. Para isso, o psicólogo tem como instrumento fundamental a sua própria pessoa. “A personalidade do profissional é tema de imprescindível exame para quem se dedica à Orientação Vocacional” (Bohoslavsky, 1993, p.199).

A função principal do orientador vocacional é a de facilitar o acesso às informações relativas às profissões e ao mercado de trabalho, podendo-se identificá-lo este como um intérprete, um mediador entre o mundo das ciências e do trabalho e o adolescente que está em vias de escolher uma profissão (Silva, 1999b). Assim, o papel do orientador vocacional deve ser, primeiramente, o de um facilitador do desenvolvimento individual (Super & Junior, 1980), devendo estar comprometido com a sua atividade e sendo competente na medida em que cumpre com todos os requisitos necessários para obter resultados fidedignos e com um posicionamento ético diante da sua profissão.

Outro aspecto questionado é a real finalidade do processo de OV. Este, ao passo que é entendido como um amplo processo que induz ao conhecimento, não pode ter apenas a finalidade de informar sobre carreiras profissionais, e sim, levar o jovem a fazer uma reflexão no sentido de realizar a sua escolha profissional de forma amadurecida e consciente. Deve haver uma conscientização de que em muitos casos os serviços de orientação profissional – que prestam informações, apenas, sobre profissões – tem um alcance restrito e, algumas vezes, não chegam a resultados totalmente satisfatórios. Sabe-se que a escolha profissional não é um momento estático no desenvolvimento de um indivíduo; ao contrário, é um comportamento que se inclui num processo contínuo de mudança da personalidade (Bohoslavsky, 1993), e a OV só atinge sua finalidade quando leva em consideração essa mobilidade.

No processo de OV devem ser trabalhados o autoconhecimento e a elaboração da escolha em si, levando em consideração todos os determinantes (Vasconcelos, Antunes & Silva, 1998). Segundo Bohoslavsky (1993), a OV tem o objetivo principal de definir uma carreira ou trabalho a ser seguido pelo adolescente, permitindo que este aprenda a escolher e a encontrar sua identidade vocacional, e assim, sua identidade pessoal. O processo de OV vai fazer com que o adolescente decida de maneira mais autônoma, levando em consideração suas próprias determinações psíquicas e as circunstâncias sociais (Müller, 1988).

O autoconhecimento trabalhado na OV deve ser entendido como um processo contínuo; os interesses e aptidões, assim como características de personalidade não são estáticos, mudando conforme a experiência e o tempo. Assim, a melhor escolha é aquela que o jovem realiza a partir de um maior conhecimento de si como ser e sujeito ativo de sua própria história, determinado pela realidade social e econômica, e por um conhecimento das possibilidades profissionais oferecidas pela sociedade em que está inserido (Bock & Aguiar, 1995). No momento da escolha, o jovem tende a idealizar o seu futuro, o que não é ruim, mas, sem perceber, idealiza a sociedade e o mercado de trabalho como algo isolado, cristalizado e sem movimento. Notadamente, tem-se mudado o perfil das diversas profissões e dos profissionais. O mundo globalizado, inevitavelmente, coloca em segundo plano profissões que anteriormente idealizavam como mais importantes e necessárias do que outras; algumas profissões foram forçadas a mudar as formas de atuação e até seus conceitos (Calheiros, Araújo & Silveira, 2000).

Deve ser discutida e trabalhada de maneira realista a relação entre o mercado de trabalho e a escolha profissional. O mercado de trabalho é um fator de fundamental importância para a escolha do jovem, mas desde que compreendido através de uma perspectiva dinâmica, na qual a sociedade está inserida. Deve-se tentar discutir, a partir de uma visão econômica, que a escolha profissional não é uma escolha de uma faculdade ou de um curso e sim de um trabalho, situando o jovem nesse âmbito. É fundamental, ainda, apontar-lhe o processo social, estimulando-o a uma reflexão sobre as condições e formas em que o trabalho ocorre na sociedade. Todo tipo de informação deve ser passada de maneira realista, precisa e objetiva, refletindo as reais condições dos cursos e das próprias profissões, pois somente assim poderá propiciar escolhas conscientes. Dessa forma, mesmo as informações que apresentam os problemas vividos pelos profissionais de determinadas áreas devem ser passadas precisamente e analisadas posteriormente, contribuindo para a construção de uma visão crítica não só da sua escolha, mas também da sociedade onde vive (Bock & Aguiar, 1995).

Em termos de referencial teórico, a abordagem clínica é a que trabalha o processo de escolha de uma forma mais ampla (Vasconcelos, Antunes & Silva, 1998), investigando possíveis problemáticas do indivíduo e instigando o adolescente a ter conhecimento da sua identidade vocacional. O método clínico possibilita ao orientando pensar nos aspectos mais pessoais de sua vida, seus temores, inseguranças, fantasias e expectativas. Nele se podem utilizar técnicas auxiliares como recursos a mais; essas técnicas incluem: testes projetivos, testes psicométricos, técnicas não estandardizadas, como questionários, dramatizações, jogos, técnicas plásticas (desenho, pintura), entre outros (Müller, 1988).

Deve-se tentar compreender mais concretamente como o indivíduo se apresenta no momento da escolha profissional, mostrando-lhe que tem todo um histórico de vida a ser considerado. Nessa sua história, pode ter vivenciado interesses e aptidões e deve procurar posicionar-se frente a eles, percebendo que se não determinam em absoluto a escolha, indicam alguns caminhos. No trabalho de orientação, deve-se procurar estimular a reflexão sobre a multiplicidade de aspectos envolvidos na construção do futuro de uma pessoa. É importante que se trabalhe para que o jovem compreenda-se como um ser em movimento que pode mudar seus interesses e possibilidades no decorrer da vida (Bock & Aguiar, 1995).

 

Considerações Finais

No processo de OV, a vocação não nasce e mostra-se ao acaso, mas é construída subjetiva e historicamente em interação com os outros, segundo as oportunidades familiares, as disposições pessoais e o contexto sociocultural e econômico (Müller, 1988). As pessoas são identificadas, muitas vezes, por aquilo que fazem; grande parte da vida o ser humano passa trabalhando, sendo inegável o peso que o trabalho tem e sempre teve para a humanidade. No entanto, decidir por uma carreira profissional a ser seguida, muitas vezes, não é fácil, pois envolve muitos aspectos. O momento de decisão profissional é muito difícil para o adolescente, porque implica a escolha de um futuro. O jovem, juntamente com as pessoas que estão á sua volta, espera uma decisão definitiva, fato que muitas vezes não acontece, já que a identidade vocacional de uma pessoa é delineada ao longo de sua vida, à medida em que vai tendo consciência das suas características de personalidade. Como afirma Müller (1988, p. 18), “nossa identidade profissional se constrói laboriosamente em um processo contínuo, permanente, sempre factível de ser revisado, pelo qual podemos dizer que nossa aprendizagem é perpétua”.

Surgem novos caminhos que exigem adaptações para acompanhar a realidade sociocultural e econômica, sendo imprescindível ter uma ação em OV que atenda às necessidades atuais frente aos impactos ocorridos nas instituições, nas pessoas e na sociedade como um todo (Hissa & Almeida, 2000). As transformações que a sociedade enfrenta requerem novas posturas, não só dos profissionais de OV, mas dos profissionais de todas as áreas.

O profissional de psicologia que decide se dedicar à OV deve estar seguro de sua identidade profissional. Sua atividade profissional estará comprometida se este, ao tentar auxiliar o adolescente a formular sua identidade vocacional, não tiver segurança de sua própria função e de sua escolha profissional. É de fundamental importância que todos os requisitos para a prática profissional de OV sejam cumpridos, com a finalidade de se chegar a resultados coerentes, podendo-se assim, também, enfrentar as novas perspectivas e desafios impostos pela sociedade. Acima de tudo, o profissional de OV deve estar ciente do papel a desempenhar, devendo ser um profissional comprometido terminantemente com a sua atuação, sabendo que o seu autoconhecimento é uma condição sine qua non para atuar profissionalmente na área vocacional. Deve, ainda, ter consciência dos seus limites, sendo competente na medida em que se compromete a cumprir com todos os requisitos necessários para obter resultados fidedignos e tem um posicionamento ético diante da profissão e do diploma que lhe foi concedido.

Para a OV cumprir com sua real finalidade, deve ser operacionalizada de maneira coerente, ou seja, mais do que informar sobre as carreiras profissionais, a OV deve promover o autoconhecimento do indivíduo. Como meio facilitador para a escolha profissional, a OV ajuda o indivíduo a formar-se cidadão em seu sentido mais pleno, uma vez que, ao ajudá-lo a encontrar uma identidade profissional, auxilia-o a estruturar uma identidade pessoal, favorecendo na elaboração de um projeto de vida de forma mais responsável e consciente. Mais do que escolher uma profissão, a OV auxilia o jovem a adaptar-se à vida.

 

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Endereço para correspondência
Josemberg M. de Andrade, Girlene R. de Jesus
Maja Meira & Zandre B. de Vasconcelos
Universidade Federal da Paraíba, CCHLA
Departamento de Psicologia
58059-900 João Pessoa-PB

Recebido em 04/05/01
Aprovado em 20/10/01

 

 

* Bolsista de Iniciação Científica, Programa CNPq-PIBIC-UFPB.
** Bolsista de Iniciação Científica, Programa CNPq-PIBIC-UFPB.
*** Profissional de Orientação Vocacional, Professora da Universidade Federal da Paraíba.