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[REVER - Dezembro - Ano 8 - 2008] Texto - Lucila Scavone

Religiões, Gênero e Feminismo

Lucila Scavone [UNESP] []

Resumo

Este ensaio teve origem em minha participação na mesa-redonda Mulheres e homens: fiéis às suas religiões? cuja proposta foi fazer uma reflexão sobre os dados recentes das religiões no país, com base nas pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (2007) e Datafolha (2007), os quais evidenciam que a Igreja Católica vem perdendo fiéis, sobretudo, femininos. O objetivo deste texto é tanto refletir sobre estes dados, como repensar os vínculos entre o fenômeno religioso e as questões de gênero, sob a ótica das idéias do feminismo contemporâneo.

Palavras-chave: fenômeno religioso, gênero, feminismo.

Abstract

This essay has its source on my participation in the round table; Women & Man: Faithful to their religion? which intent was to initiate a thought regarding recent religion data in the country, based upon Fundação Getúlio Vargas (2007) and Datafolha (2007) researches, which give evidence that the Catholic Church is losing followers, above all, females. The main objective of this essay is to reflect about the data, and also rethink all links between religions phenomenon and gender questions, under the contemporary feminism ideas.

Keywords: religions phenomenon, gender, feminism.

Religião e Feminismo

Estes vínculos foram analisados pelo feminismo contemporâneo, do final dos anos 1960 em diante, nas grandes religiões ocidentais cristãs, sobretudo, o catolicismo. Tratava-se de compreender sociologicamente a relação das mulheres com o fenômeno religioso e de construir uma crítica às injunções da Igreja à vida das mulheres. Perguntava-se, em termos gerais, por que as mulheres buscavam a religião, se a religião ratificava-lhes um lugar de subalternidade na sociedade?

O feminismo propunha uma transformação radical das relações de gênero em todos os domínios da vida social, tanto o público, como o privado. Importante lembrar que este feminismo teve como substrato material, a emergência da sociedade urbano-industrial moderna, que foi marcada pela entrada das mulheres no mercado de trabalho, a qual se ampliou progressivamente no decorrer do século XX. Aos poucos, as mulheres passaram a ter uma dupla jornada de trabalho (doméstica e extra-doméstica) e, com isto, a nova responsabilidade de conciliar vida profissional com vida familiar. Outro fator importante foi o advento da contracepção medicalizada e segura nos anos 1960, dando possibilidade às mulheres de escolherem o número de filho/as que desejavam. Neste contexto social em que as mulheres começaram a ocupar cada vez mais o espaço público por meio da inserção no trabalho assalariado e na educação formal, as contradições do espaço privado vinham à tona e tornava-se premente politizá-las.

Ao politizar as relações pessoais, o feminismo combatia um dos pilares da dominação masculina: a dependência da sexualidade com a reprodução, com todos seus desdobramentos familiares, sociais e políticos. Romper com esta subordinação implicava não só do ponto de vista legal tornar acessível o uso de contraceptivos seguros e a prática do aborto; mas também, do ponto de vista social tornar possível a escolha da maternidade, em última instância, desligá-la do determinismo biológico. Por conseqüência, o papel social da maternidade na família não poderia mais ser considerado como natural, com isto ficava abalado outro pilar da dominação masculina, a divisão sexual do trabalho na esfera privada.

O catolicismo tradicional sustentava a posição reinante: separação das duas esferas (por gêneros) e mantinha-se irredutível em relação às questões da reprodução e da sexualidade. Na crítica feminista laica e religiosa havia, então, embate explícito contra a hierarquia católica masculina, que ditava regras para a vida das mulheres, perpetuando a desigualdade de gênero. Na crítica feminista católica se contestava os lugares que as mulheres ocupavam na Igreja – tal qual a impossibilidade da ordenação feminina - que apontavam para as questões de poder e de gênero em luta no campo religioso.

Em 1975, a Revista Feminista Cahiers du GRIF, por exemplo, lançou um número dedicado à análise da intensa participação das mulheres na Igreja e denunciava o androcentrismo da religião católica; o título deste número Les femmes accusent l’Eglise sugeria o confronto[1]. A análise chamava atenção para o fato das mulheres serem consideradas o principal público das Igrejas, constituindo sua base de sustentação, sem poder participar dos problemas que lhes concerniam. Os desdobramentos contemporâneos destas análises foram burilados e aprofundados pelos estudos feministas e de gênero relacionados com a religião, apesar de ainda se confrontarem com questões semelhantes como a suposta (e, na maioria das vezes, constatada) maior religiosidade feminina que masculina, que continua sendo sustentáculo das Igrejas.[2]

Dos anos 70 para os anos 2000, muitas coisas mudaram e outras tantas continuaram estagnadas, principalmente, as que dizem respeito a perpetuação dos valores simbólicos, com mais força nos países do sul. A busca pela profissionalização e a escolha da maternidade ampliou as possibilidades das mulheres alcançarem uma realização pessoal e social mais abrangente. Mas, nem por isto abandonaram as práticas religiosas, algumas mulheres começaram a contestá-las por dentro; outras, submetiam-se aos seus limites. Em relação ao catolicismo, cabe dizer que na maioria das vezes, as regras restritivas em relação à contracepção, por exemplo, não eram seguidas por suas fiéis.

Se os efeitos da globalização atingiram as religiões e seitas, que se estenderam mais rapidamente pelo mundo; muitas idéias feministas lançadas nos anos 70, também, tiveram o mesmo trajeto. As feministas continuaram suas lutas, algumas históricas, pois ainda não conquistadas, como as do direito ao aborto na maioria dos países da América Latina, que se confronta com os princípios de praticamente todas as religiões. Neste sentido, o trabalho político das Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) tem um papel fundamental dentro do catolicismo, neste continente, por defender os interesses das mulheres no próprio campo religioso que, como todos os campos sociais, é um campo de lutas (Bourdieu 2000).

Cada vez mais as transformações nas relações de gênero abalam os padrões tradicionais de comportamento. Entretanto, junto com estas mudanças há as permanências e, portanto, a persistência social da dominação masculina (Bourdieu 1998). No caso do Brasil, estas permanências são agravadas pelas profundas desigualdades sociais que se imbricam com as questões de gênero e raça. Assim, as mulheres brasileiras continuam buscando conforto na religião seja por necessidade de reconhecimento social ou de escuta, em um contexto material de adversidades; seja pela manifestação das inquietudes da alma e do espírito, ou pela necessidade do exercício da crença e/ou da busca pela salvação.

Se o vínculo do gênero com religião católica está diminuindo no Brasil, conforme as pesquisas (DataFolha; FGV 2007), ele continua sólido no cômputo geral das religiões, já que as mulheres são ainda o grande público das Igrejas Ao utilizarmos uma análise do habitus de Bourdieu ao campo religioso (Bourdieu 2000) poder-se-ia sugerir que o habitus primário (e secundário) das mulheres reforça elementos subjetivos de sensibilidade e espiritualidade, os quais estão em sintonia com a vivência da religião e que são mobilizados pelas famílias e pela(s) Igreja(s), desde a infância. No Brasil, este habitus é, também, fortalecido social e culturalmente pela forte religiosidade: 97% dos brasileiros dizem acreditar em Deus (DataFolha 2007).

Em um campo há sempre um elemento principal em jogo - no caso do campo religioso, a manutenção do monopólio de seus princípios doutrinários, ou seja, o capital simbólico, cultural e econômico de cada religião - e as diferentes posições dos grupos que se disputam no campo.. As mulheres neste campo são assujeitadas aos preceitos produzidos pela hierarquia masculina. Estas estruturas (o campo e o habitus) rompem-se quando dentro do campo há uma luta contra esta posição, como é o caso das CDD, acima citado. Ou, ainda quando, as mulheres buscam outras formas de expressão de suas sensibilidades e/ou espiritualidades.

Religião e Gênero

A pergunta mais apropriada no contexto brasileiro contemporâneo é a que esta mesa-redonda propõe: mulheres e homens – fiéis às suas religiões? Incluem-se os homens e o plural em religião, pois se vivemos em um país ainda predominantemente católico, seus praticantes estão migrando para outras religiões. Segundo a pesquisa Datafolha (2007), o Brasil passou de 75% de católicos em 1994, para 64% em 2007, enquanto os evangélicos pentecostais cresceram de 10% para 17% no mesmo período.

O catolicismo, ainda hegemônico no país, cede lugar gradativamente, com maior aceleração nas duas últimas décadas, para outras religiões patriarcais, especialmente evangélicas. A perda da hegemonia católica, de acordo com os dados, evidencia uma mudança radical nas práticas religiosas no país. Para além da análise de Pierucci (2007) - “é fácil ser católico” pela não-ortodoxia de uma parcela considerável de seus praticantes, que freqüentam mais de uma religião (o espiritismo, candomblé, entre outras) - observa-se que a Igreja Católica está perdendo seus fiéis e, sobretudo, que está perdendo uma parcela que lhes era tradicionalmente fiel: as mulheres.

De fato, os dados da pesquisa FGV (2007) mostram que, se Igreja Católica perdeu fiéis dos dois sexos, a perda dos fiéis femininos foi maior que a dos masculinos. Hoje se observa uma inversão na relação homens e mulheres católico/as, que se ainda não é quantitativamente relevante, é muito significativa: “entre quem professa algum credo (...) 76,16% das mulheres são católicas, contra 79,49% dos homens” (FGV 2007: 17), pois quebra uma tradição de 60 anos, nos quais as mulheres foram mais numerosas que os homens no catolicismo. Cabe dizer que mesmo assim, as mulheres continuam mais religiosas que os homens, conforme acima mencionado, embora, também, estejam declarando mais “não-religiosidade” nos últimos anos: “3,98% delas não possuem crença contra 6.32% deles”. A análise destes dados mostrou que diminuiu a diferença entre ‘os não-religiosos’ homens e mulheres, em relação há três anos antes, o que significaria que os “homens se tornaram mais religiosos” (FGV 2007: 17).

Observa-se que, atualmente, as mulheres continuam mais numerosas que os homens nas religiões evangélicas pentecostais, as quais oferecem aos fiéis soluções mais imediatas a seus problemas materiais, ao estilo do pragmatismo protestante, que como uma ética, alimentaria a prosperidade capitalista (Weber 2004). Portanto, as religiões pentecostais (protestantes) se instalaram nas periferias das grandes cidades do país e ofereceram aos seus fiéis (em troca de dízimo) práticas religiosas e de sociabilidade grupais, que buscavam fortalecer o individuo e sua relação com a coletividade, em resposta às urgências sociais, especialmente materiais.

A pesquisa da FGV mostra que as mulheres migraram para a Evangélica Pentecostal, onde em 2003 representavam 13,51% para 9,74% de homens. O interesse das mulheres pelo Pentecostalismo foi pesquisado por inúmera/os cientistas sociais no Brasil e na América Latina (Machado 1996). As análises mostram que se de um lado, essas práticas religiosas oferecem às mulheres uma resposta mais imediata no que concernem seus problemas familiares e pessoais; por outro lado, reafirmam o lugar tradicional das mulheres na sociedade, de acordo com sua doutrina patriarcal e androcêntrica.

Ressalta-se, entretanto, que além das soluções para problemas provenientes de falta de perspectivas de vida (alcoolismo, drogas, violência,) algumas das religiões Pentecostais permitem um modo de vida mais condizente com os “costumes” contemporâneos, do que outras (Viana 2007). A maioria delas, entretanto, não se opõe o uso de contraceptivos modernos, embora desaprovem o aborto. O aborto é condenado pelo conjunto das religiões cristãs e orientais, com raras exceções, como é o caso da Igreja Presbiteriana que se declara a favor do aborto em caso de estupro e risco de vida para a mulher, em sintonia com os dois dispositivos legais do Código Penal brasileiro.[3]

Os dados e as questões levantadas nestas pesquisas sugerem que uma das máximas do feminismo contemporâneo dos anos 1970 “o privado é também político” tem um alcance ainda está longe de ser esgotado. Nas sociedades globalizadas contemporâneas as questões privadas nunca estiveram tão expostas (inclusive, pelo uso das tecnologias de comunicação); tão próximas e tão distantes; tão discutidas, portanto, transformadas em ‘saberes disciplinados’ e controladas pelo biopoder, foucaultianamente falando. [4] Em contradição, o fosso entre a vida pública e a vida privada aumentou significativamente, com o incremento do individualismo e a grande dispersão das formas coletivas de sociabilidade. Neste contexto, as questões de gênero se recolocaram, já que as mulheres, em sua maioria, passaram a administrar os problemas desta separação.

Buscar na religião conforto para as dores da alma pode já não ser mais suficiente, principalmente, se ela é feita em um espaço de práticas religiosas limitativas do ponto de vista material (interdições que abalem a vida privada, por exemplo). Por outro lado, procurar na religião uma resposta mais efetiva para seus problemas da vida cotidiana - que as fiéis parecem encontrar na sociabilidade e na acolhida emocional do Pentecostalismo (e, também, entre os Carismáticos) - pode gerar respostas reparadoras gratificantes, sem proporcionar, contudo, nenhuma mudança substancial nas relações de gênero, pelos limites do próprio campo religioso, com sua estrutura patriarcal.

Em conclusão é possível afirmar, que todas as transformações sociais, econômicas da modernidade e a difusão das idéias feministas, nestes últimos 40 anos, incidiram sobre as relações de gênero. Estas idéias abriram caminhos para que em todos os campos do social, as questões de gênero fossem colocadas. Observa-se pelos dados acima que, mesmo o campo religioso, em seu aspecto institucional, tradicionalmente antifeminista, não ficou imune aos efeitos sociais e culturais das idéias feministas contemporâneas.

Bibliografia

BOURDIEU P. 2000 O Poder Simbólico, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.

_____________. 1998 La domination Masculine, Paris, Seuil.

DATAFOLHA. /05/2007 “Após 10 anos o Papa encontra o Brasil menos católico”, Folha de São Paulo, São Paulo.

_____________. 05/05/2007 “64% dos brasileiros se declaram católicos”, Folha de São Paulo, São Paulo

CÔRTES, M. (org) 2007 Economia das religiões: mudanças recentes, Rio de Janeiro, FGV/IBRE.

FOUCAULT, M. 1979 Microfísica do Poder, Rio de Janeiro, Edições Graal.

MACHADO M. D. 1996 Carismáticos e Pentecostais. Adesão Religiosa na Esfera Familiar, Campinas – São Paulo, Editora Autores Associados, ANPOCS.

PIERUCCI, A. F. 06/05/2007 “É fácil ser católico”, Folha de São Paulo, São Paulo, Caderno Especial.

VIANNA, L.F. 06/05/2007 ”Periferia do Rio exibe avanço de evangélicos”, Folha de São Paulo, São Paulo, Caderno Especial.

WEBER, M. 2004 A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, São Paulo, Companhia das Letras.

Recebido: 05/10/2008
Aceite final: 30/11/2008

Notas

[1] Des Femmes Accusent l’Église.Paris/Bruxelles: Les Cahiers du GRIF, n.8, set.1975.

[2] A propósito deste fenômeno em várias religiões ver ROSADO, M.J. (org) Dossiê “Gênero e Religião” in Estudos Feministas, Florianópolis 13(2):363-436, maio-agosto/2005.

[3] Conforme http://www.edeus.org/edeus/resposta13.htm

[4] Biopoder: forma de poder surgida no séc. XIX que permite controlar o comportamento das populações pelas suas tendências estatísticas. (Foucault 1979).