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Análise Social - A identidade na Velhice

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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  n.193 Lisboa out. 2009

 

Susana Matos Viegas e Catarina Antunes Gomes, A identidade na Velhice, Porto, Editora Âmbar, 2007, 138 páginas.

 

Liliana Sousa

Universidade de Aveiro

 

No livro A Identidade na Velhice as autoras utilizam narrativas de vida enquadradas nos seus contextos sociais e culturais para reflectirem sobre a identidade na velhice. A identidade é aqui apresentada como um processo intersubjectivo e relacional e o envelhecimento como um estado liminar (entre encruzilhadas).

A construção e reconstrução da identidade são processos que nos acompanham ao longo da vida. Neste livro, os dilemas, conflitos, contradições e conquistas de identidade na velhice são relatados de forma tão simples como complexa, ganhando vida em histórias de pessoas que convivem com a sua velhice. Estas histórias  de vida são sistematicamente pontuadas e analisadas por referências teóricas que integram algumas perspectivas que nos temos habituado a ver/usar separadas: as tradicionais abordagens psicológicas, biológicas e sociais conjugam-se e interligam-se pela vida de algumas personagens e pela análise de Susana Viegas e Catarina Gomes.

O livro estrutura-se em seis partes. Na introdução, o leitor fica esclarecido quanto ao ponto de partida das autoras, e ficamos, principalmente, a saber que aqui a «identidade descreve o modo como nos vemos através dos outros e como imaginamos ser por eles vistos, numa espécie de jogos de espelhos» (p. ii).

O primeiro capítulo remete para “As imagens conflituais da velhice” e confronta-nos com alguns antagonismos entre a velhice e o envelhecimento através de conceitos comuns na literatura actual: ageism e envelhecimento activo.

O segundo capítulo, “Identidades espelhadas”, apresenta-nos a aldeia de Almalaguês e alguns dos seus habitantes mais velhos, mostrando-nos como «a passagem dos indivíduos pelo curso da vida é concebido pelo fluir de reinterpretações de si próprio, a partir de imagens cruzadas, daquilo que se foi no passado, projectado no presente, e do que se é no presente, em confronto com aqueles com quem se partilha uma experiência social e histórica» (p. 69).

O terceiro capítulo, “Não deixar de trabalhar”, mantém-nos naquela aldeia, mostrando-nos como nas pessoas de idade o significado de trabalhar parece ser reavaliado: «se não exibirem o seu trabalho podem ser identificados, irremediavelmente, com o estigma da velhice» (p. 79).

No quarto capítulo, “Envelhecimento activo e a modalidade heróica do envelhecimento: ressonâncias e dissonâncias», somos colocados perante outra realidade: a da existência de uma universidade da terceira idade. Também neste contexto se evidencia a necessidade de as pessoas idosas reafirmarem a sua pertença ao mundo social pela actividade e pela acção.

O livro termina com os “Comentários conclusivos”, em que se salienta «a velhice como enigma a desvelar na experiência, uma experiência fortemente marcada por contradições ou mesmo por dilemas» (p. 128).

A leitura desta obra é extremamente rica, desde logo por nos fazer embrenhar naquilo que as pessoas idosas estarão a sentir, a pensar e a viver: por vezes, esta experiência parece contraditória e complexa, mas apenas porque nos obriga a aproximar da vivência das personagens (o Dr. Castro, a Sr.ª Aurora…) que dão vida aos conceitos. Para além deste sentir o que as pessoas idosas sentem, o livro torna-se pertinente na contextualização, esclarecimento e discussão de diversos conceitos associados à velhice, como ageism, envelhecimento activo, idade, destino, despessoalização, dependência e autonomia, estigma, herança, trabalho e reforma, maturidade, sabedoria, experiência, destino… Trata-se de termos, conceitos e noções de uso corrente em diversos contextos (mais formais ou informais, mais ou menos académicos), muitas vezes sem reflexão ou crítica sobre o seu significado e implicações. Aqui todos estes conceitos ganham vida e permitem-nos questionar quando e como podemos usá-los.

Nesta obra enfatiza-se a ideia de que ainda não existem modelos de identidade para a velhice. Por isso eles são procurados na juventude ou em sermos mais novos do que alguém: no «espelho dos processos de constituição da identidade na velhice, perguntamo-nos quem há mais velho do que nós com o objectivo de que a nossa própria imagem possa ser salva nessa comparação» (p. 59). As pessoas idosas precisam de modelos de identidade que lhes permitam ser quem são e não lhes exijam ser quem não são. Além disso, é relevante sublinhar que os modelos de identidade que se criem agora vão influenciar as próximas gerações de idosos. Talvez este seja um dos principais contributos para reflexão resultante da leitura deste livro.

Uma frase da Sr.ª Aurora (p. 61) parece-me traduzir bem aquele que é um dos maiores desafios que todos encaramos na construção da identidade na velhice: «todas caminhamos para a velhice, mas há pessoas que pensam que não chegam lá»!